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CPA vs. Espironolactona: Comparação Clínica na Escolha do Antiandrógeno

O CPA (acetato de ciproterona, mais conhecido como Androcur) e a espironolactona (Aldactone) são os dois antiandrógenos mais usados na TRH para mulheres trans. Esta página compara os dois dimensão por dimensão, ao longo dos eixos que importam na decisão clínica. Ela não oferece uma recomendação universal — a escolha deve ser feita junto com um(a) profissional de saúde, levando em conta as comorbidades de cada pessoa, as condições de monitoramento e a disponibilidade do medicamento.

DimensãoCPA (Androcur)Espironolactona (Aldactone)
MecanismoAgonismo do receptor de progesterona + antagonismo fraco de AR + supressão de LH/FSHAntagonismo da aldosterona (diurético poupador de potássio) + antagonismo de AR em alta dose
Eficácia na supressão de TMais confiável (retroalimentação negativa na hipófise)Moderada (sobretudo bloqueio de receptor; o T sérico pode não chegar à faixa de castração)
Dose padrão5-12,5 mg/dia100-300 mg/dia
Nível de evidência A A
Risco mais grave a longo prazoMeningioma (ligado à dose cumulativa)Hipercalemia (ligada à função renal)
Foco do monitoramentoFunção hepática · prolactina · dose cumulativa · dor de cabeça/alterações visuaisPotássio · função renal · pressão arterial
Disponibilidade no BrasilAndrocur com receita em ambulatórios trans e endocrinologia (~R$ 40-80/mês)Aldactone/genéricos em qualquer farmácia; cobertura pelo SUS (~R$ 15-40/mês)
Disponibilidade em PortugalAndrocur com receita e comparticipação SNS (~€8-15/mês)Aldactone com receita e comparticipação SNS (~€5-10/mês)

CPA: supressão por múltiplas vias, sobretudo por retroalimentação negativa

Seção intitulada “CPA: supressão por múltiplas vias, sobretudo por retroalimentação negativa”

O CPA reduz a ação androgênica por três mecanismos [15] :

  1. Retroalimentação negativa via receptor de progesterona (principal): suprime o GnRH hipotalâmico → reduz o LH/FSH hipofisário → diminui a síntese de testosterona
  2. Antagonismo fraco do receptor de androgênio: muito mais fraco que a bicalutamida, com relevância clínica limitada
  3. Inibição leve da 5α-redutase: reduz a conversão de T → DHT

Resultado: a testosterona sérica costuma cair para a faixa feminina (<50 ng/dL); o efeito é mais estável quando combinado com estrogênio.

Espironolactona: dupla via, aldosterona + androgênio

Seção intitulada “Espironolactona: dupla via, aldosterona + androgênio”

A espironolactona é, originalmente, um diurético poupador de potássio; sua ação antiandrogênica vem do bloqueio competitivo do receptor de androgênio em doses altas [7] [23] :

  1. Antagonismo do receptor de aldosterona (mecanismo principal): diurese poupadora de potássio, reduz a pressão arterial
  2. Antagonismo do receptor de androgênio (dose alta): surge acima de 100 mg
  3. Leve supressão da síntese de testosterona: mecanismo ainda não totalmente compreendido

Resultado: a testosterona sérica pode cair só moderadamente ou permanecer na faixa normal, mas a ação androgênica em nível tecidual é bloqueada, e a feminização clínica continua sendo possível.

IndicadorCPA 5-12,5 mgEspironolactona 100-300 mg
Redução mediana da testosterona sérica80-95%30-60%
Proporção que atinge a faixa feminina (<50 ng/dL)MaiorMenor; em geral requer coadministração de E2
Tempo até começar a fazer efeito4-8 semanas6-12 semanas
Efeito sobre a DHTModeradoReduzida indiretamente, via bloqueio de AR

Ponto-chave: para quem é “sensível aos números do exame” (quer ver o T na faixa feminina), o CPA atinge a meta com mais facilidade; para quem se orienta pelos sintomas (foco em pelos corporais, oleosidade, libido), os dois podem ser eficazes.

Outros riscos:

  • Hepatotoxicidade: elevação de ALT/AST, rara insuficiência hepática aguda; verifique a função hepática a cada 3-6 meses
  • Humor deprimido / depressão: efeito progestogênico, relatado por ~10-20% das usuárias
  • Hiperprolactinemia: monitore a PRL; elevação persistente sugere redução de dose
  • Diminuição da libido: efeito esperado da supressão acentuada de T; algumas usuárias acham incômodo

Outros riscos:

  • Aumento da frequência urinária / noctúria: efeito diurético; a maioria tolera em 4-8 semanas
  • Hipotensão / tontura ao levantar: mais marcante no início do tratamento
  • Sensibilidade mamária: comum, em geral não exige interrupção
  • Flutuação da libido: variação individual significativa
ContraindicaçãoCPAEspironolactona
Histórico de meningiomaContraindicação absolutaSeguro
Insuficiência hepática graveContraindicadoUsar com cautela
Insuficiência renal (eGFR <30)Reduzir a doseContraindicada
Hipercalemia conhecidaSeguroContraindicada
Uso concomitante de IECA/BRA sem monitoramentoSeguroContraindicada
Episódio depressivo/bipolar ativoUsar com cautelaRelativamente segura
Gravidez (em pessoas férteis)ContraindicadoContraindicada
MomentoCPAEspironolactona
BasalFunção hepática · prolactina · RM (opcional)Potássio · função renal · pressão arterial
Semana 2Potássio · pressão arterial
Semana 6-8Testosterona · função hepática · prolactinaTestosterona · potássio · função renal
A cada 3-6 mesesFunção hepática · prolactina · revisão da dose cumulativaPotássio · função renal
AnualmenteRM cerebral (usuárias de longo prazo)Rastreamento mamário
  • CPA (Androcur): disponível em farmácias com receita médica. A marca Androcur (Bayer) 50 mg é a mais comum. Serviços de endocrinologia e ambulatórios trans do SUS podem prescrever. Custo: ~R$ 40-80/caixa. Cobertura pelo SUS disponível em alguns ambulatórios; na farmácia comercial, nem todos os convênios cobrem
  • Espironolactona (Aldactone e genéricos): disponível em qualquer farmácia com receita. Genéricos nacionais amplamente disponíveis. Custo: ~R$ 15-40/mês. Boa cobertura pelo SUS e pelos convênios
  • CPA (Androcur): disponível com receita médica e comparticipação pelo SNS. Custo com comparticipação: ~€8-15/mês
  • Espironolactona (Aldactone): disponível com receita médica e comparticipação pelo SNS. Custo com comparticipação: ~€5-10/mês

Prefira o CPA quando:

  • Quer ver o T sérico na faixa feminina
  • A monoterapia com espironolactona não suprime o T o suficiente
  • Tem problemas renais ou tendência ao aumento do potássio
  • Não tolera os efeitos diuréticos da espironolactona

Prefira a espironolactona quando:

  • É jovem e planeja TRH de longo prazo (>5 anos), situação em que a dose cumulativa de CPA pesa
  • Tem histórico de meningioma ou RM basal alterada
  • Também precisa controlar a pressão arterial
  • Busca o medicamento mais acessível e barato

Considere um agonista de GnRH quando:

  • Tanto o CPA quanto a espironolactona forem contraindicados/intoleráveis
  • Precisa de supressão máxima de T (período de transição antes da gonadectomia)
  • As finanças permitirem (Decapeptyl: ~R$ 800-1.500/aplicação no Brasil)

Monoterapia com injeção de E2 / monoterapia em alta dose:

  • Algumas usuárias alcançam a supressão natural de T com injeção de E2 em alta dose e podem suspender os antiandrógenos
  • Deve ser feito sob supervisão de um(a) profissional de saúde, com monitoramento sanguíneo contínuo

Veja o guia detalhado: Guia Completo de Troca de Antiandrógeno