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Comparativo de Diretrizes: WPATH SOC 8 · Endocrine Society 2017 · UCSF · CFM

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Na terapia hormonal de afirmação de gênero (THAG), três documentos de consenso internacional são as principais referências: WPATH SOC 8 (Coleman 2022), a Endocrine Society 2017 (Hembree et al.) e a diretriz UCSF (Deutsch 2016) [1] [2] [3] . No Brasil, as Resoluções do CFM (especialmente a 2.265/2019) e o Processo Transexualizador do SUS servem como referência regulatória nacional.

Esta página coloca todas as diretrizes lado a lado, ponto por ponto. Onde concordam, indicamos Consenso. Onde há diferenças, elas são documentadas de forma objetiva. Se uma diretriz não tem posição explícita sobre um parâmetro, indicamos não especificado — isso não significa rejeição, apenas que não atribuímos um valor a ela.


Posicionamento e foco das quatro diretrizes
DiretrizFoco principalPerspectiva clínica
WPATH SOC 8 (2022) Padrão multidisciplinar de cuidado para pessoas trans e de gênero diverso — abrange psicologia, cirurgia, endocrinologia e atenção primária. Enfatiza cuidado individualizado, consentimento informado e consenso multidisciplinar atual.
Endocrine Society 2017 (Hembree) Diretriz clínica para endocrinologistas com foco em esquemas terapêuticos, valores-alvo e monitoramento sistemático. Fornece as faixas de referência numéricas mais precisas e é o modelo de prescrição mais utilizado na endocrinologia.
UCSF (2016) Manual prático para atenção primária com ênfase em aplicabilidade no dia a dia e titulação individualizada. Oferece detalhes clínicos práticos e enfatiza a adaptação à resposta real do paciente e à disponibilidade de medicamentos.
CFM / SUS Brasil Resolução CFM 2.265/2019 + Processo Transexualizador SUS — diagnóstico, indicação, terapia hormonal e procedimentos cirúrgicos com regulamentações específicas de acesso. Segue clinicamente WPATH/ES, mas adiciona normas de acesso: idade mínima (16 para TH, 18 para cirurgias), acompanhamento multidisciplinar e encaminhamento pelos ambulatórios trans.

Alvos hormonais e monitoramento de segurança no comparativo
ParâmetroWPATH SOC 8 (2022)Endocrine Society 2017UCSF (2016)CFM / SUS Brasil
Alvo de E2 na fase de manutenção Titulação individualizada conforme resposta clínica; evitar níveis suprafisiológicos. Faixa de referência sérica definida: cerca de 100-200 pg/mL (367-734 pmol/L). Orientação pela faixa feminina cis (cerca de 100-200 pg/mL), guiada principalmente pela supressão de T; sem valor fixo único. Referencia os alvos da Endocrine Society; recomenda controles regulares de níveis com ajuste individual.
Alvo de supressão de testosterona Supressão para a faixa feminina cis (< 50 ng/dL / 1,7 nmol/L). Supressão para a faixa feminina cis (< 50 ng/dL / 1,7 nmol/L). Supressão para a faixa feminina cis (< 50 ng/dL / 1,7 nmol/L). Supressão para a faixa feminina cis (< 50 ng/dL / 1,7 nmol/L).
Monitoramento na fase de ajuste Frequência aumentada de controles no início da terapia e em mudanças de dose; ritmo individualizado. No primeiro ano, controlar hormônios e parâmetros de segurança a cada 3 meses. Controles no 3.o e 6.o mês (com espironolactona: eletrólitos e função renal adicionais). Exames laboratoriais no 3.o, 6.o e 12.o mês; monitoramento mais frequente com CPA (enzimas hepáticas, prolactina).
Monitoramento na fase de manutenção Acompanhamento regular de longo prazo após estabilização. Com valores estáveis, hormônios e parâmetros de segurança a cada 6-12 meses. Controles regulares (geralmente a cada 6-12 meses); com espironolactona, eletrólitos e função renal. Controles anuais incluindo hormônios, enzimas hepáticas, lipídios e prolactina; mais frequente com CPA.
  • Consenso e interpretação:
    • Supressão de testosterona: Todas as quatro diretrizes concordam: a testosterona sérica deve ser suprimida para a faixa de referência feminina cis (< 50 ng/dL ou < 1,7 nmol/L) [2] [1] . Este é o consenso mais claro entre todos os documentos.
    • Alvo de E2: Embora as formulações variem, todas as quatro desaconselham níveis suprafisiologicamente altos de E2. A Endocrine Society é a única a nomear uma faixa específica (100-200 pg/mL), enquanto WPATH, UCSF e CFM/SUS enfatizam mais o controle individualizado [2] [3] . Dados clínicos mostram: um nível de E2 na faixa de 100-200 pg/mL é suficiente para feminização e saúde óssea; valores acima de 200 pg/mL geralmente não aumentam a feminização, mas elevam o risco de TEV [5] .

2.2 Vias de administração e medicação auxiliar

Seção intitulada “2.2 Vias de administração e medicação auxiliar”
Vias de administração, antiandrogênicos e progesterona no comparativo
ParâmetroWPATH SOC 8 (2022)Endocrine Society 2017UCSF (2016)CFM / SUS Brasil
Risco de TEV e via de administração Via transdérmica (gel/adesivo) tem menor risco de TEV do que oral; preferir transdérmica em pacientes de alto risco. E2 transdérmico não eleva ou eleva minimamente o risco de TEV; em pacientes com idade avançada ou fatores cardiovasculares, recomendar via transdérmica. E2 oral sofre efeito de primeira passagem hepática e aumenta síntese de fatores de coagulação; em pessoas de alto risco, via transdérmica. Recomenda via transdérmica em caso de risco elevado de TEV (tabagismo, IMC > 30, idade > 40, trombofilia). No Brasil, Oestrogel e Estradot são os medicamentos transdérmicos mais comuns.
Escolha do antiandrogênico Reconhece espironolactona, CPA e agonistas de GnRH; avaliação individualizada de risco-benefício. Recomenda primariamente espironolactona ou agonistas de GnRH; menciona CPA (disponibilidade regional varia). Espironolactona como antiandrogênico primário; agonistas de GnRH como alternativa. No Brasil, espironolactona (Aldactone) e CPA (Androcur) são ambos de primeira linha nos ambulatórios trans. Agonistas de GnRH (Decapeptyl) são opção em casos específicos.
Dose de segurança do CPA e meningioma Reconhece CPA em dose baixa; alerta sobre risco de meningioma com exposição cumulativa prolongada e recomenda a menor dose eficaz. Lista CPA como possível antiandrogênico; enfatiza necessidade de monitoramento de função hepática e metabólico. Reconhece CPA; apoia dose baixa para redução de riscos cumulativos de segurança. CPA prescrito nos ambulatórios trans em dose baixa (5-12,5 mg/dia); a ANVISA segue as restrições da EMA de 2020 sobre risco de meningioma.
Progesterona (progestágenos) Não recomendada como terapia padrão; falta de evidência para efeito feminizante; uso apenas com decisão compartilhada. Não incluída no esquema padrão; evidências atuais não sustentam uso rotineiro para feminização. Sem uso rotineiro para feminização; sem evidência robusta para melhora do desenvolvimento mamário. Não especificada como componente padrão; Utrogestan (progesterona micronizada) é usado off-label em alguns ambulatórios, mas sem base de evidências como terapia de feminização.
  • Consenso e interpretação:
    • Via de administração: Todas as quatro concordam que estradiol transdérmico (adesivo ou gel) tem risco de TEV significativamente menor do que a via oral. Em fumantes, pessoas com mais idade ou com obesidade, a via transdérmica é priorizada [5] [1] . No Brasil, Oestrogel e Estradot são os medicamentos transdérmicos mais comuns; Primogyna é a opção oral mais prescrita.
    • CPA e risco de meningioma: O risco de meningioma com CPA depende primariamente da dose cumulativa de longo prazo. A base regulatória é a restrição da EMA de 2020 [4] [6] . No Brasil, Androcur é o medicamento de CPA mais comum.
    • Progesterona como medicação de rotina: Todas as quatro diretrizes não recomendam progestágenos como componente padrão da terapia hormonal feminizante, pois faltam estudos randomizados controlados sobre melhora do desenvolvimento mamário [1] [2] .

  • Acesso: O Processo Transexualizador do SUS (Portaria 2.803/2013) oferece TH e cirurgias em hospitais habilitados. A Resolução CFM 2.265/2019 autoriza TH a partir dos 16 anos. Ambulatórios trans existem nas principais capitais
  • Medicamentos disponíveis: Estrogênios: Primogyna (oral), Oestrogel (gel), Estradot (adesivo). Antiandrogênicos: Aldactone (espironolactona), Androcur (CPA). Progesterona: Utrogestan
  • Planos de saúde: Desde a RN 465/2021 da ANS, convênios devem cobrir procedimentos do Processo Transexualizador
  • Emergência: SAMU 192
  • Acesso: O SNS oferece acompanhamento de identidade de gênero, principalmente pelo Hospital de Santa Maria em Lisboa. A Lei 38/2018 garante autodeterminação de gênero a partir dos 16 anos
  • Medicamentos disponíveis: Similar ao padrão europeu — CPA (Androcur), Estradot (adesivo), Oestrogel (gel)
  • Emergência: 112

Grau de concordância e resumo de evidências das diretrizes
Parâmetro clínicoConsenso entre diretrizesConclusão baseada em evidências
Supressão de T (< 50 ng/dL) Consenso total Consenso clínico mais claro — implementação recomendada
Aconselhamento de fertilidade antes da TH Consenso total Criopreservação e impactos devem ser discutidos antes do início
Progesterona não como terapia padrão Consenso total Falta de evidência para efeito feminizante; não é componente padrão
Transdérmico mais seguro que oral (TEV) Consenso total Em caso de risco de coagulação ou comorbidades, preferir adesivo/gel
Alvo de E2 na fase de manutenção Consenso parcial ES 2017 define 100-200 pg/mL; WPATH, UCSF e CFM apostam em titulação individual
Antiandrogênico preferido Diferenças regionais Brasil: espironolactona e CPA são ambos primeira linha; Portugal: CPA; EUA: espironolactona

  1. Exigir o consenso: Suprimir testosterona para a faixa feminina cis, discutir fertilidade antes do início, sem doses suprafisiológicas de estrogênio — isso está ancorado em todas as quatro diretrizes [1] [2] .
  2. Individualizar os pontos abertos: Faixa-alvo de E2, escolha do antiandrogênico e frequência de monitoramento dependem das suas comorbidades, valores hepáticos, pressão arterial e disponibilidade de medicamentos — isso pertence à consulta médica, não à autotitulação.
  3. Observar sinais de segurança atuais: Diretrizes têm ciclos de atualização. Sempre verifique também mudanças regulatórias atuais (como a restrição da EMA para CPA em 2020 [4] ) que podem não estar refletidas em diretrizes mais antigas.